Enquanto Belém ergue um parque vitrine de R$ 310 milhões para o evento climático, moradores da periferia convivem com esgoto a céu aberto, remoções e o medo do futuro.
Na Belém que se prepara para receber a COP-30, há duas cidades. Uma delas brilha. É a cidade do Parque Linear da Nova Doca, um projeto de R$ 310 milhões que promete um “balé das águas” com fontes interativas, jardins suspensos e tecnologias de saneamento importadas de Singapura. Essa é a cidade vitrine, construída para impressionar o mundo. A outra, a poucos quilômetros de distância, afunda. É a cidade real de bairros como Terra Firme, Guamá e Jurunas, onde canais viraram esgotos a céu aberto e as chuvas anuais trazem um ciclo de perdas e doenças. A modernização, ao que parece, tem endereço certo, e a conta da maquiagem urbana para o megaevento está sendo paga pelos mais vulneráveis.
Uma vitrine para os “globais”
O governo do Pará não poupa recursos no cartão-postal da COP-30. O Parque Linear da Nova Doca, localizado na nobre Avenida Visconde de Souza Franco, é a joia da coroa. A obra transformará o canal em um espaço com ciclovias, mirantes, academias ao ar livre e quiosques. A promessa é de um urbanismo verde e sustentável, com tecnologias inovadoras como wetlands flutuantes e jardins de chuva para filtrar a água. Para conter as marés e os alagamentos na área já valorizada, serão instaladas comportas automáticas.
É um projeto pensado para a imagem, para a foto. Uma estratégia para inserir Belém no circuito internacional, como admitem os próprios materiais de divulgação. Mas essa cidade-espetáculo, como define o sociólogo Zygmunt Bauman, ignora as feridas abertas do seu entorno. O investimento maciço em uma área que já possuía infraestrutura consolidada, com shoppings e restaurantes de alto padrão, escancara a lógica do urbanismo seletivo: primeiro a fachada, depois, se sobrar tempo e dinheiro, o povo.
Onde a COP não chega
Longe das luzes da Nova Doca, a realidade tem outro cheiro e outra cor. Nos bairros periféricos, os canais não têm nome de parque. São valões que carregam o esgoto de milhares de famílias e transbordam a cada inverno amazônico. Aqui, não há “balé das águas”, apenas o drama recorrente das enchentes que invadem casas, destroem móveis e espalham doenças como leptospirose e diarreia.
A desigualdade é matemática. Em bairros centrais como a Campina, um estudo de 2000 já apontava a existência de 19 m² de praças por habitante. No Guamá, esse número despencava para 0,02 m². Vinte e cinco anos depois, a lógica permanece. Enquanto a Doca ganha novos espaços de lazer, a periferia segue sendo um deserto de equipamentos públicos, forçando moradores a improvisar o convívio em ruas sem árvores e sob um calor sufocante.
Para entender melhor:
- Greenwashing: Tática de marketing usada por empresas ou governos para criar uma imagem de responsabilidade ambiental que não corresponde à realidade. São ações pontuais, como as “árvores artificiais”, que geram publicidade positiva mas não resolvem problemas estruturais.
- Gentrificação: Processo de “enobrecimento” de uma área urbana. Obras de requalificação elevam o custo de vida e o preço dos imóveis, expulsando silenciosamente os moradores de baixa renda que não conseguem mais arcar com os novos valores.
- Direito à Cidade: Conceito que defende que os habitantes devem ter acesso justo aos recursos e serviços da cidade, além de participar ativamente das decisões sobre o espaço urbano. A falta de consulta popular nas obras da COP-30 é uma violação desse princípio.
- Modernidade Líquida: Teoria do sociólogo Zygmunt Bauman. Descreve a sociedade contemporânea como fluida e instável, onde tudo é temporário e focado no consumo imediato. O urbanismo de megaeventos, que cria obras para o momento e não para o legado, é um reflexo disso.
Medo líquido e tratores
As obras para a COP-30 não apenas ignoram a periferia. Em alguns casos, elas avançam sobre ela. Em nome da macrodrenagem de canais como o do Guamá e Tucunduba, famílias estão sendo removidas de casas onde viveram por décadas. A abordagem é unilateral. Moradores relatam terem recebido notificações de desocupação com prazos de apenas cinco dias e indenizações que variam entre R$ 27 mil e R$ 41 mil, valores considerados insuficientes para encontrar uma nova moradia.
“Não houve reuniões prévias com o governo, apenas notificações unilaterais”, afirmam moradores à reportagem da Carta Amazônia, descrevendo um sentimento de injustiça e abandono. Em alguns locais, casas foram marcadas com tinta vermelha, deixando as famílias em um estado de ansiedade permanente, sem saber quando o trator chegará. É a materialização do “medo líquido” de Bauman: uma ameaça difusa e constante que fragiliza a comunidade.
As árvores que não são árvores
Talvez o maior símbolo da contradição seja a polêmica das “árvores de mentira”. Na Nova Doca, onde o plantio de árvores reais seria supostamente limitado, o governo instalou estruturas metálicas cobertas por plantas trepadeiras, chamadas de “jardins suspensos”. A justificativa oficial foi a de uma “inovação estética e funcional” inspirada em modelos internacionais.
Especialistas, no entanto, foram duros nas críticas. Paisagistas e urbanistas apontaram a solução como um exemplo de greenwashing. Argumentam que as estruturas têm baixa capacidade de captura de carbono, alto custo de manutenção e impacto quase nulo na biodiversidade e na redução do calor, ao contrário de árvores nativas. A ironia é gritante: na cidade que sediará a cúpula do clima, e que é a sexta capital menos arborizada do Brasil, a aposta é em estruturas artificiais. Enquanto isso, bairros como a Sacramenta registram ilhas de calor com temperaturas até 5,5°C mais altas que as áreas de floresta vizinhas.
O esgoto dos outros
O caso da Vila da Barca é emblemático. A comunidade, uma das maiores palafitas da América Latina, está espremida entre a Baía do Guajará e o bairro nobre do Umarizal. Historicamente negligenciada, sem saneamento básico, a comunidade foi escolhida para abrigar uma estação de esgoto das obras da Nova Doca. Ou seja, o território pobre e excluído receberia os dejetos da cidade-vitrine, sem, a princípio, ser beneficiado pelo saneamento.
A decisão gerou protestos. Em uma tensa audiência pública, moradores chegaram a servir água barrenta aos representantes da companhia de saneamento, que afirmavam “tomar água da torneira”. A pressão popular funcionou. Após a repercussão, o governo anunciou que, finalmente, incluiria a Vila da Barca nas obras de saneamento.
A COP-30 poderia ser a chance de curar as feridas históricas de Belém. De levar dignidade e infraestrutura para quem sempre esteve à margem. Contudo, o que se desenha até agora é a repetição de um roteiro conhecido em megaeventos: a criação de uma cidade para inglês ver, que aprofunda a desigualdade e nega à maioria o direito a uma cidade justa. A questão que fica é: quando as luzes do evento se apagarem, qual Belém restará? A do parque iluminado ou a dos canais esquecidos?












